Pesquisar este blog

sábado, 19 de junho de 2010

Artigas: a morte pela independência

Os uruguaios têm sua própria Meca, e ela habita o coração de Montevidéu, onde a lembrança de um passado sangrento ecoa pelo subsolo da praça. E é com lábios cerrados que os guerreiros de mármore pintados de azul vigiam o maior ícone do altruísmo uruguaio: a pequena urna dourada pelo brio do compatriota que pariu a república oriental às margens do rio. Ídolo máximo do Uruguai, Artigas entregou sua vida à história, e suportou o peso de converter-se em herói da nação. Em sua homenagem, o extinto regime militar adornou a capital com seu corpo. Hoje, 19 de junho, data de seu nascimento, a perspectiva de sentir-se aos seus pés confere rubor religioso à estrutura subterrânea.

sábado, 5 de junho de 2010

PacMan contra-ataca o Império


Para quem ainda duvida que a memória do homem urbano pós-moderno é atomizada, sugiro conferir um dos novos layout’s do mais popular site de busca da rede mundial. Trata-se de uma versão do clássico PacMan, o simpático ponto amarelado que preconizou o conceito de game familiar. Estima-se, no entanto, que a iniciativa tenha causado um prejuízo de US$ 120 milhões – R$ 225 milhões – em produtividade. Embora possua pouco apelo revolucionário, o come-come, para a inveja de muitos líderes globais, contou com a imediata adesão dos sujeitos que cresceram sob sua tutela. Sentiu saudade das aventuras cíclicas do esfomeado personagem? Então aproveite; acesse o Google e se divirta consumindo virtualmente a economia mundial...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O pesadelo de Martin

Quando ousou legitimar a maior utopia do país que inspirou as Revoluções Republicanas, Martin Luther King encontrou o caminho para romper o silêncio que sustentava o processo de opressão. Diluído em camadas, qualquer conceito se oficializa através de ideais representativos geralmente associados ao poder conferido pela identificação com a maioria. Negando a visão de um quadro social bordado pela miscigenação, o absurdo pode assumir contornos de mecanismo de defesa, legitimando a segregação. Há cinquenta anos, a pele polarizou o discurso nos Estados Unidos, e a tendência de identificação determinou a vitória parcial do padrão de estética dominante. Aos derrotados, no entanto, o futuro ofereceu a adesão em âmbito internacional. Ao mundo, o episódio ofereceu uma dura lição: o preconceito, independente de período ou foco, quase sempre é um ato de distanciamento em detrimento da associação ao mais forte. O fim de sua reprodução depende de uma concepção estruturalista, de caráter social, que encontre na diversidade os nutrientes de uma nova forma de igualdade.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O pai de todos!?

No Paraguai, os mais firmes indicadores apontam para o ex-monsenhor Fernando Lugo. Pois parece que sua prole estendeu-se para além da adotada democracia. Até agora, o mundo já conheceu pelo menos três possíveis frutos de sua aversão aos métodos contraceptivos; produto evidente da orientação católica. Mas sua renúncia ao celibato está corroendo bem mais do que a imagem da Igreja; é o povo quem deseja mensurar todas as consequências de seus atos. E, neste sentido, o Lugômetro do jornal portenho Perfil sintetiza perfeitamente o novo rumo do espírito político do Paraguai.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A morte do caçador de militares

Com uma caneta, Tancredo de Almeida Neves atrasou os tanques da Ditadura Brasileira em três anos. Após a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, o então deputado articulou, através do Congresso, a instalação do parlamentarismo, elegendo-se Primeiro-Ministro. Com a medida, Tancredo reduziu o poder do presidente. E duas semanas mais tarde, os planos do golpe encontraram a solidão na gaveta de algum dos ministros militares. Assim, antes da primavera, João Goulart assumiu o cargo sem precisar romper seus vínculos com os representantes do Partido Comunista.
Tancredo Neves apoiou o presidente Jango até o derradeiro 1º de abril de 1964, quando os militares finalmente o depuseram. Diante do novo Regime, a legenda MDB converteu-se em seu escudo. Adotando uma postura moderada de combate à ditadura, Tancredo elegeu-se em três oportunidades. Em 1982, finalmente assumiu o governado de Minas Gerais. E após a luta pelas Diretas, seu destino seria a Presidência da República. Mas o homem que digeriu uma ditadura não resistiu a um tumor no intestino, convertendo a sua cerimônia de posse em velório.
Aos olhos da destemperada democracia brasileira, preservar a memória daquele 21 de abril talvez fosse uma missão para a história, que já o fizera em nome do "Alferes mineiro" ironicamente eternizado ao longo de três Regimes ditatoriais. A ausência de referências denuncia, no entanto, que a cruz carregada por Tancredo até 1985 não tinha peso suficiente para deixar uma grande marca; pois parece que chegou a hora de seu exemplo agonizar no imaginário dos brasileiros, campo ainda assombrado por fantasmas de mentalidade ditatorial.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Uma frase infeliz pode mudar o mundo

A cada disparo, uma polêmica. Quando o alvo são as convenções, nenhuma arma tem tanto poder quanto a semântica. E no chão, só as folhas de jornal aquecem os corpos que tombam estigmatizando consciências. Em Pernambuco, tratava-se de uma vítima. Não de um aborto, mas de um estupro.
A infância não será devolvida à frágil menina que aos nove anos carregava no pequeno ventre o involuntário peso de duas vidas. O procedimento cirúrgico que a salvou do parto chegou a condenar a equipe médica à excomunhão. Mas a maior ferida afligiu a infalibilidade papal, simbolizada pelo código do Direito Canônico. Com base no documento, as leis da Igreja foram aplicadas pelo arcebispo de Olinda, Dom José Cardoso Sobrinho. Em verdade, tratava-se de uma determinação eclesiástica. Mas seu grande impacto social ofereceu ao Estado Laico a chance de fincar raízes. À memória, o caso recomenda o resgate da imagem de Paulo Salim Maluf. Ou melhor, a lembrança de sua pior frase, proferida há 20 anos em uma universidade de medicina de Minas Gerais. Pois parece que a “distorcida doutrina” do “Estupra mas não mata!” continua servido aos discursos de oposição à banalização da morte.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Com a cabeça nas nuvens

Com uma máquina fotográfica aquele estudante franzino, de aparência pálida, capturou três soldados bolivianos, abrindo caminho através da sombria ponte. E dois minutos mais tarde, acomodado em uma pequena caixa, o chá que o ajudou a amenizar os efeitos da altitude rompeu a fronteira da Convenção de Viena. Em verdade, o derivado da Coca chegou ao Brasil embalado por uma simples mochila de náilon. Mas a negligência da polícia aduaneira pode ter atendido às pretensões econômicas de algum traficante naquela sexta-feira de verão.
A folha da Coca é o elemento básico do chá que os bolivianos consomem sob as perspectivas de oxigenar o organismo e regular a digestão. A fórmula é indígena, e antiga, mas seu lucro é o novo fruto de um capitalismo opressor. E é com a frieza de uma máquina que a pujante indústria do mais pobre país da América do Sul pretende envolver o Estado em seus próprios cofres. E o apelo é forte! Afinal, em apenas um ano, cerca de quatro mil toneladas da Coca boliviana se transformam em Chás, farinhas, biomedicamentos e outros produtos. Além disso, a demanda interna é uma fronteira relativamente larga; pela cultura, e especialmente pelas margens das convenções internacionais.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O homem nasce bom; e só o bandido morre mau!

A calamidade assumiu o comando de Santa Catarina através da metodologia de enchentes. Mas, a opulência da tragédia que abateu o vale do Itajaí não deve superar a empatia que tradicionalmente blinda os brasileiros. Sentimento, aliás, que emerge dos mais remotos cantos do país. Locais onde inclusive as noções de cidadania são geralmente negligenciadas; como o Presídio Central de Porto Alegre, onde ontem, 4 de dezembro, 4.808 detentos se propuseram a abdicar à alimentação oferecida pelo Estado em prol das vítimas catarinenses. No total, o esforço dos presidiários ofereceu aos flagelados catarinenses mais de 1,6 tonelada de alimentos. A iniciativa dos detentos gaúchos ostenta a aura de um ato inusitado aos olhos de quem se distanciou do verdadeiro conceito de cidadania. Os veículos de comunicação praticamente negligenciaram o fato, que rendeu uma pequena nota no Correio Braziliense do último dia 2. Sinal de que os jornalistas também estão distanciando-se dos valores que fundamentam a função social da profissão; renunciando à possibilidade de estimular o debate acerca do sistema carcerário nacional e o estigma social que reduz a imagem do apenado à figura de um membro excluído a quem é vetada a chance de investir em sua própria recuperação.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Piratas somalis: os emergentes da África

A fome governa a Somália desde 1991, ano em que o país africano perdeu seu comando oficial. Sob o Regime da miséria, a nação assistiu à alienação de sua soberania. E a débil infra-estrutura estatal cedeu espaço à pirataria, atividade considerada subversiva desde a Idade Média, com a qual alguns somalis estão viabilizando a reprodução da economia capitalista.
É no Cabo da Boa Esperança, onde “desbravadores” e traficantes de escravos encontraram abrigo em tempos remotos, que os piratas somalis colhem o fruto que potencializa a construção civil da capital Mogadíscio: os petroleiros, navios cujos resgates oferecem aos novos ricos africanos a chance de erguer mansões sobre os barracos que outrora preenchiam o horizonte poeirento daquele pobre país.
Em 2008, mais de 65 barcos foram atacados pelos piratas somalis no Oceano Índico. E o mais recente alvo foi o superpetroleiro saudita Sirius Star, um dos maiores do mundo. Os seqüestradores, que tomaram a embarcação no dia 16 de novembro, exigem US$ 25 milhões de resgate – ¼ do valor do petróleo transportado pelo navio.
Um representante da ONU foi assassinado na Somália no início do mês. E parece que a situação do país ainda não sensibilizou as autoridades estadunidenses. Talvez nenhum navio da grande nação tenha sido seqüestrado. Ou trata-se apenas de um sinal de que o verdadeiro compromisso do Tio Sam definitivamente não se afina com a defesa da democracia quando o território é a África; seu antigo laboratório farmacêutico.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Obama: seu World é a Internet

A popularidade de Barack Hussein Obama subverteu o ufanismo estadunidense para encarar a crise econômica global. Mas o carisma do novo líder ainda não combinou com as bolsas. Sua imagem ainda pode ser analisada sob a luz dos mecanismos de representação. E, se o estilo de arte Kitsch que o envolveu continuar flertando com o posto de american way of life, o futuro pode exilá-lo no reino dos jogos políticos de alternativas previamente programadas. Aliás, a versão virtual deste universo já foi produzida pela empresa ZenSoft, que acaba de lançar na democrática Internet - canal com que Obama angariou fundos para a sua campanha milionária - o Super Obama Word. Mas os gráficos do novo jogo foram generosos com seu protagonista. Pois, no estágio da Casa Branca, o maior desafio da aventura de governar uma nação do porte dos EUA é não poder contar com mais de uma vida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama: a vitória é do sistema

A indústria cinematográfica estadunidense – sustentada pelos estúdios milionários de Hollywood – empenha-se na construção de um herói negro há anos. E a figura idealizada sempre é atrelada à iconografia política; especificamente ao cargo executivo nacional, em filmes onde geralmente as personagens costumam solucionar racionalmente grandes crises “reais” – econômicas e/ou catástrofes naturais. A história dos Estados Unidos oferece Martin Luther King, o ativista entregue à luta contra a segregação racial que tombou no revolucionário ano de 1968, como referência básica para estes produtos culturais. E, por esta predisposição semiótica, seu vulto serviu ao projeto midiático de exaltação à figura de Barack Hussein Obama; processo reproduzido durante a última campanha eleitoral. Mas Obama transcendeu a comparação, convertendo-se em presidente dos Estados Unidos ao superar efetiva e pacificamente o conservadorismo do adversário e o legado de seu ídolo. Com a vitória, aliás, Obama encarnou a personificação iconográfica do ideal democrático ocidental: a identidade de herói – de carne e osso.
A crise econômica que agita o mercado internacional é um desafio à altura de Hollywood, e do intelecto de Obama. E liderar o esforço para superá-la diplomaticamente pode potencializar o reconhecimento da função referencial dos valores absolutos da nação estadunidense. Ou, parafraseando George Lucas, com Obama, O Império Contra-Ataca!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Nas mãos do povo


O ramo do entretenimento é uma poderosa fonte de relativização de conceitos. Seu mote reduz a complexidade iconográfica de objetos representativos a estereótipos exagerados através do estímulo ao consumo. Uma dinâmica comum aos países onde o liberalismo econômico apresenta-se fantasiado de democracia - o chamado Primeiro Mundo -; territórios em que o marketing empenhado na construção de ícones políticos é facilmente anulado com o apelo humorístico de brinquedos que os ridicularizam. E a mais recente vítima deste impiedoso processo é o Primeiro-Ministro da França, Nicolas Sarkozy. Na semana passada ele perdeu a primeira batalha da guerra judicial que está travando contra a Tear Prod, empresa européia que produziu 20 mil exemplares de um boneco de vodu com o seu rosto. Mas Sorkozy deve recorrer, e continuar tentando impedir a venda do produto – disponível no site amazon.fr.
Para os representantes do Tribunal de Grande Instância de Paris, esta utilização não-autorizada da imagem de Sarkozy não atenta contra a dignidade humana nem constitui um ataque pessoal contra o Primeiro-Ministro. E mais; o juiz, que não teve o nome divulgado, afirma que o brinquedo se inscreve nos limites autorizados da liberdade de expressão e do direito ao humor. Aliás, Sarkozy também deveria rir das agulhadas. Afinal, a França é o berço de um povo que costumava condenavar Reis à guilhotina.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A mobilidade social de um conflito

A regulamentação do mercado de entorpecentes como a maconha é uma alternativa jurídica que potencializaria o amálgama administrativo do Estado brasileiro. Sob o crivo da história, tal medida seria forçada a vestir a máscara bizarra de um movimento contra-revolucionário que sobreviveria em oposição à principal demanda do homem social: a liberdade.
No Brasil, o espírito maniqueísta resumiu o conflito entre governantes e traficantes à polarização, inviabilizando o debate público. Portanto, a oficialização do consumo de drogas representa uma derrota para o Estado, e esse contexto legitima a inversão das funções através de um processo de mobilidade social que converte criminosos em empresários, e reduz o cidadão a consumidor. Legalizar o mercado de entorpecentes, portanto, é uma solução econômica que possivelmente não representará vantagem social.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

As filosofias políticas e o valor do amor

O sistema político-filosófico desenvolvido por Auguste Comte recomendava o amor, por princípio, a ordem, por meio, e o progresso, por fim. O brasileiro Benjamim Constant ousou abreviar este lema, e pariu uma bandeira nacional cujos pobres preceitos foram sublimados pelo regime instaurado em 1964. O amor do glorioso estandarte do Brasil ainda não conseguiu converter-se em ordem, e o seu projeto de progresso assumiu o papel de representar, à luz do céu profundo, a fulguração do florão da América que adormeceu ao som da arrebentação do positivismo nas pedras do mar das idéias tortas.
No áureo século XXI, enquanto os olhos do mundo se abrem ao exemplo de desenvolvimento chinês, os chineses tentam conciliar o projeto de Mao Tse-Tung com o ideal capitalista; mas, superar Confúcio, seria rejeitar o amor. O filósofo que viveu antes de Sócrates ensinou a seu povo as cinco virtudes capitais da humanidade: o amor a todos os homens sem distinção; a justiça que dá a cada qual aquilo que lhe cabe; a observação das cerimônias e dos usos estabelecidos a fim de que todos os que vivem segundo a mesma norma participem das mesmas vantagens e desvantagens; a retidão de ânimo e de coração, que leva a buscar em todas as coisas a verdade, ou desejá-la, sem se enganar e sem enganar a ninguém; e a sinceridade, isto é, o coração franco, que afasta toda dissimulação nos fatos e nas palavras.
O altruísmo de Comte talvez esteja escondido embaixo da linha imaginária que abraça a Terra na altura do Equador. A China, sem Confúcio, alimenta-se de toda a confusão de um sistema que enlata o amor em formato DVD. A Índia libertou-se de seus grilhões com a ajuda de Ghandi, mas hoje oferece sua fé quase que exclusivamente a ídolos religiosos. Com os hippies, os estadunidenses aprenderam a amar; mas nunca esqueceram a guerra. E quem se debruçar sobre a história encontrará outros indícios de que o valor do amor precisa ser restado sob pena de condenar à morte a intuição que sempre sustentou a condição humana. Transformemos, então, o amor em nossa principal bandeira!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os estigmas de um emergente

O gigante asiático foi despertado à luz do globalizado século XXI sob as atraentes promessas do opulento projeto de desenvolvimento econômico que se alimenta da gordura derramada pelos corpos dourados das batatas fritas e dos hambúrgueres do Mcdonalds. E quem delicia-se com este verdadeiro banquete cultural é o pragmatismo importado do ocidente, que sentou-se confortavelmente à mesa, e, sem fazer cerimônias, está devorando em mastigadas lentas e impiedosas a tradição milenar deste deslumbrado emergente que ousa honrar as convenções de anfitrião. Cedendo educadamente ao apelo competitivo para ruminar o seu sistema de Democracia Socialista, a verdade é uma testemunha de que a China está preparando o estômago para assinar um incoerente e irrevogável contrato com o dragão a quem outrora combateu: o neoliberalismo.
Na terra de Mao Tse-Tung, este é o ano do rato; período astrológico caracteristicamente marcado por poucas guerras e conflitos, menos catástrofes e excelentes resultados em negócios e investimentos à longo prazo. Mas os chineses estão dispostos a brigar, pois vencer os Jogos Olímpicos de Pequim é o caminho mais curto para disseminar, com a ajuda da propaganda, o discurso de que o país desenvolveu um sistema político-administrativo proporcionalmente complexo e poderoso. E, se tudo der certo, talvez o mundo até esqueça-se de que o maior país da Ásia cresce impulsionado pelos mesmos combustíveis que alimentaram a Revolução Industrial do século XIX: a fé no lucro do liberalismo econômico e as nuvens pretas do carvão e da impotência do trabalhador.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O presidente vazio

O discurso nacionalista do presidente Hugo Chávez apresenta-se superficialmente como um ícone idiossincrático. À bem da verdade, suas propostas político-administrativas são sensível e paradoxalmente definidas como neopopulistas ou bolivarianas. Mas a natureza relativa destes ensaios interpretativos é produto da escassez conceitual de referências básicas e universais. Enquanto político, portanto, Chávez não consegue despir a fantasia de artífice do arquétipo demagogo.
Profissionalmente comprometido com o projeto de converter-se em objeto de adoração nacional, no início do mês, o Chávez venezuelano protagonizou uma cena à altura do estilo trapalhão de seu homônimo mexicano. Aliás, preenchendo um espaço público destinado ao debate de questões relevantes à nação com a narração da dificuldade que enfrentou para administrar uma crise de diarréia, o presidente da Venezuela ofereceu ao mundo – talvez sem querer querendo – provas irrefutáveis de que realmente é um político física e ideologicamente vazio.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A musa tecnicolor


A França rendeu-se a magia de uma paixão psicodélica. E a fonte desse sentimento é Carla Bruni, musa que calçou o vermelho-luxúria da fatal Brigitte Bardot, vestiu o branco-paz da eternamente elegante Jackeline Kennedy, e assumiu um amor todo-azul pelo Primeiro Ministro Nicolas Sarkozy, o erudito seduzido pelos prazeres do pop.
Condenados pelo matrimônio a altos níveis de popularidade internacional, o casal Sarkozy tem ótimos resultados a comemorar. Afinal, à Nicolas, o casamento serviu de escada para escalar pesquisas de opinião pública. À Carla, o enlace apresentou-se como o selo que conduziria o seu novo disco ao topo da lista dos mais vendidos da Europa em menos de 20 dias. E ao povo francês, a união viabilizou a materialização da única empatia que nutriam pelos eternos rivais estadunidenses através da possibilidade de consagrar um “indispensável” ícone político: a primeira-dama. Até agora, a italiana naturalizada francesa e o homem de seis cérebros só não agradaram aos colombianos, cujo orgulho nacional foi ferido pelas alusões à cocaína produzida no país em uma referência feita por Bruni na letra da canção “Você é minha droga”, na qual “homenageia” o amado.
Indiscutivelmente satisfeito, Sarkozy pode vangloriar-se por crescer politicamente ao acompanhar uma mulher de 40 anos que encanta pela honestidade de não esconder as sombras de seus 30 ex-amantes. E, se a comparação de sua amada com Jackeline Kennedy parece inevitável, por que não compará-lo ao próprio ex-presidente JFK, que em 1961, quando voltava de uma viagem à França, disse: “Eu sou o homem que acompanhou Jackie”. Pois hoje, na intimidade de seus pensamentos, Sarkozy deve intuir: “Eu sou o homem que acompanha Bruni”.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

As antíteses da coerência instrumental

Os alemães se depararam com um espelho distorcido no despertar do julho de 2008, quando um homem de 41 anos, cujo nome não foi divulgado, decapitou a estátua de cera do ex-ditador nazista Adolf Hitler (registrada pelas lentes de Miguel Villagran, da AP), que se encontrava sentado a uma mesa estrategicamente alojada em uma sala do Museu Tussauds, em Berlim. Gritando “Guerra nunca mais!”, o algoz da estátua valeu-se de um machado para isolar a representação da mais poderosa arma utilizada por um ditador: a cabeça! Mas, como a podridão que emerge de uma infrutífera antítese, a atitude deste artífice da justiça irracional reafirmou o poder simbólico da figura de Hitler, representação que fere seu opositor através do estímulo inconsciente à violência. E a nova vítima da implacável força é a coerência cognitiva, o órgão vital de qualquer proposta ideológica. No tocante à oposição ao nazismo, o organismo deveria nutrir-se de um conceito que vislumbra o processo de mudança através da simbiose discurso/prática. Afinal, reservar à imagem de Hitler uma raiva aniquiladora, capaz de consagrar a dinâmica da força física como instrumento político-administrativo, é metodologicamente igualar-se a ele.
Os sérvios, por sua vez, refletiram os pujantes raios da democracia ocidental com o processo de investigação que culminou na prisão de Radovan Karadzic, o genocida que governou a Bósnia no quadriênio 1992-1996, e atualmente vivia na capital Belgrado sob a identidade falsa de um especialista em medicina alternativa que ensinava técnicas de relaxamento. O julgamento deste psiquiatra, poeta e ex-líder que armou o cerco a Sarajevo no início dos anos 1990, e manteve dezenas de campos de concentração sob a justificativa de promover a “limpeza étnica” da atual Sérvia, atende a uma antiga exigência da União Européia, bloco político-econômico do qual alguns pequenos países da Europa ainda não participam. Em verdade, tal exigência da U.E., ao estabelecer uma condição de negociação desequilibrada e estrategicamente hipócrita, serve para descredenciar os países pouco desenvolvidos através da comprovação de ineficácias administrativas. Mas a Sérvia surpreendeu. E, se Karadzic for entregue ao Tribunal Internacional de Justiça, o jovem país dará um firme passo simbólico no sentido da consagração do regime democrático de direito. E, neste projeto, o próprio Karadzic, enquanto prisioneiro de guerra, assume o papel de instrumento político-administrativo. Afinal, em uma demonstração de eficiência, o novo regime superou as velhas técnicas opressoras do antigo líder desencadeando um processo de captura coerente até no emprego dos dispositivos utilizados para conter os manifestantes pró-Karadzic – a da defesa contra a força do ataque sob a justificativa da manutenção da ordem.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O império contra-ataca

Ontem – 14 de julho – a queda da Bastilha fez aniversário. Mas quem ganhou o presente foi a nova Rainha das cervejarias, a empresa belgo-brasileira INBEV. Ao adquirir a tradicional estadunidense Budweiser, após a negociação que preencheu uma agenda de meses, a empresa foi coroada a maior Titã do ramo no planeta. E o seu poder político pode crescer proporcionalmente.
Pela natureza eminentemente empresarial, a nova gigante deve reforçar as alianças com o lucro nos países subdesenvolvidos, mercados onde os vinhos ainda não atraem tanto quanto as loiras geladas. E, como os súditos brasileiros foram apadrinhados pelos paradoxos, a maior cervejaria do mundo possivelmente não encontrará dificuldades para continuar crescendo e enchendo o baú de tesouros no país onde atualmente os motoristas devem submeter-se à tolerância zero do consumo de álcool. Seria este o fruto de uma democracia do sinal verde? Talvez! O certo é que a indiferença continua conduzindo a maioria das campanhas empresariais de responsabilidade social à economia do vermelho.
A autonomia de grande parte dos motoristas brasileiros ainda encontra-se sob a tutela de um dos dois senhores feudais que administram o fértil território: o álcool ou o Estado. Pelas conveniências, a ligação entre interesses políticos e empresariais nem sempre privilegia a legítima independência cognitiva, portanto, cabe aos consumidores promover uma nova e opulenta revolução renascentista. E não será preciso boicotar o consumo; apenas os excessos.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Fome 10; moral 0

O resultado parcial da operação Satiagraha – a prisão e a reincidente liberação de 16 cidadãos brasileiros suspeitos de corrupção e/ou lavagem de dinheiro investigados pela Polícia Federal – é um vaidoso retoque à maquiagem do sorriso petrificado que emudece a vontade geral do modelo administrativo de federação em que o tempero da união é o silêncio. No cardápio deste país, todos os sabores da justiça são servidos em fartos rodízios, e o habeas corpus sempre é o prato principal de quem freqüenta os restaurantes finos, ambientes onde a impunidade – vendida a quilo – é uma sobremesa doce e barata.
O menu midiático nacional oferece doses diárias de apetitosos relatos de corrupção enlatados no vácuo de toda a sua complexidade. Mas quem paga a conta pela amarga condescendência do judiciário com a receita da elite é o povo. E a inflação do plano econômico “sensação de impotência Real”, que desvaloriza o câmbio dos cumprimentos aos bons garçons do judiciário, ironicamente sustenta o mercado dos cozinheiros do Supremo Tribunal Federal. E diante da baixa oferta de punição para consumidores do Tipo A, o hábito alimentar de engolir a seco constitui-se no nutriente básico do letárgico quadro clínico do civismo nacional. Afinal, é difícil reivindicar com a garganta arranhada e os ouvidos irritados pelos gritos da barriga. E talvez seja por isso que os argentinos batem em panelas!